Caros colegas,
Um projeto recente, bem sucedido e bem-vindo na república das letras que se ocupam de Angola, chama-se sem dúvida alguma "angolanistas". Não que "angolanistas" designe propriamente um projecto, mas tão somente a iniciativa de mobilizar os angolanistas (=especialistas sobre Angola), estejam onde estiverem, sejam angolanos de naturalidade e residência ou estrangeiros, em torno de um projeto comum: fomentar o conhecimento propositivo capaz de apoiar os esforços de reconstrução e do progresso sustentável do nosso país. Significa, enfim, produzir um despertamento que seja até capaz tirar das gavetas e prateleiras de universidades centenas de dissertações, pesquisas e teses (onde dormem inertes e silenciosos há décadas) para ganhar, no calor dessa iniciativa, o formato de livros ou documentos indexados para apoiar a pesquisa científica e académica sobre a realidade e destinos da nação.
Muitos intelectuais pelo mundo inteiro e, repito, em Angola, têm consagrado sua vida intelectual/académica/científica a estudar temas relacionados com esse país. No entanto, ainda assim, estranhamente, Angola está entre os países do terceiro mundo que vivem de um modelo de gestão cujos projectos e programas de acção são concebidos à toque de caixa. Esse rico país ainda está entre as nações que vivem, em matéria de informação objectiva, de dados apenas probabilísticos. Embora tenhamos no terreno académicos e intelectuais ocupados com o fazer/discurso científico, a falta de interesse formal pelo ordenamento científico da prática política e da gestão pública, somada à total falta de investimentos oficiais em pesquisa científica básica, faz desses académicos apenas estrelas de um pequeno mundo confinado dentro das paredes de uma única universidade pública, até hoje sem laboratórios e sem bibliotecas aceitáveis. Basta atentar para o facto de que, nesse país onde tudo está por fazer, a única universidade pública vive de pires na mão à cata de recursos de parcerias privadas para ensaiar seus primeiros intentos de arrancar na pesquisa académica nos tempos de paz. Pois bem, incrementar a luta no sentido de ultrapassar rapidamente essa situação, que certamente entrava todas as perspectivas do desenvolvimento social, político, ambiental e económico sustentável de Angola, malgrado a boa intenção e o otimismo de muitos patriotas que enxergam já alguns avanços, é que torna essa iniciativa salutar e oportuna.
Infelizmente certas formas de maturidade não são um dom por atacado disponível para todos, a disposição de todo aquele que delas precisa. Como bem lembrou outro dia o colega Feliciano Cangue, a realização do I Fórum de Quadros Angolanos e Angolanistas no Brasil, uma de suas manifestações e mobilização cidadã visíveis, significou para nós angolanos, particularmente os estudantes e pesquisadores, e para os angolanistas em geral, a nossa "Semana da Arte Moderna". Aqueles que partilham os objectivos dessa iniciativa, isto é, os de promover a consciência do engajamento científico e acadêmico em prol do progresso de Angola, e lutar pela visibilização proveitosa dos seus quadros, buscando integrar suas produções acadêmica e científica aos projectos de solução que o país busca para os seus problemas e para sua reconstrução pós-guerra, sabem que este caminho é penoso e não conta ainda com o entusiasmo e o apoio da grande maioria dos nossos compatriotas (principalmente os do poder), por lhes faltar a consciência de um fato básico: a dependência que qualquer país no mundo contemporâneo tem das idéias especializadas à seu serviço.
Nunca acreditei que todos os compatriotas pudessem alcançar entendimento e expressar entusiasmo, até pelo fato simples de que inúmeras posições manifestadas no início desse projecto nunca foram, in jure, construtivas ou encorajadoras. Ao invés, muitos até contribuiram com ações e palavras para desmerecer os propósitos e objetivos programáticos manifestados pelo Fórum de Angolanistas desde o seu nascimento. Ao invés de somar, trocar idéias e debater objectivamente proposições de convergência, muitos preferiram mesmo o viés da polêmica simplória, como professores que buscam doutrinar e corrigir a um bando de pretensos estudantes equivocados. O que me pareceu louvável e brilhante foi que o Fórum manteve aberto o direito de nele entrar e permanecerem em torno de um objectivo comum: a convergência construtiva, propostiva e produtiva.
De ressaltar ainda o salutar gesto de que o fórum eletrônico permaneceu um espaço aberto (postagem direita), sem censura de mensagens, regras que fazem parte das plataformas eletrônicas dialógicas. Por isso mesmo, as impropriedades dos membros do grupo que deram sinais de despreparo para o espírito que se fecundou não são culpa deles, mas o produto de uma cultura nacional que despreza a solidariedade e a convergência para o bem comum em nome da competição gratuita e sem fundamento, e da “territorialização” dos interesses. Tenho notado que muitos angolanos estão dispostos a pagar o preço, a não desistir diante dos entraves artificialmente postos, sobretudo quando seguros de que lutam por ideais e projectos do tamanho da esperança do seu povo, do tamanho do seu país. Um papel que só será cumprido se do interior desse tipo de iniciativa nascerem frutos de paz, de reconciliação, de entendimento e esperança - as metas que teremos de perseguir se quisermos realmente consolidar a paz e construir a grandeza angolana que desejamos como herança para nossos filhos...
Parabéns a todos que compreenderam a necessidade dessa iniciativa e luta para sorgue-la a alturas do tamanho da importância do nosso país.
Zakeu Zengo